terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Ainda há contexto

Foto do Facebook do D2


O pessoal quase esqueceu a falta de cerveja quando a atração principal da noite foi anunciada. O Planet Hemp voltava a Niterói depois de não sei quantos anos, para um show histórico no Teatro Popular da cidade, projetado pelo recém-falecido mais famoso do Brasil, Oscar Niemeyer. Tirando algumas falhas de planejamento estrutural da festa como a já citada seca de Skol, o Planet Hemp deu aos seus fãs do outro lado da poça um ótimo déjà vu do que foi os anos 90, e para os mais novos, uma boa lição do que é um verdadeiro show de rock.

Antes do Planet subiram ao palco Nayah, Projota e Ponto de Equilíbrio, que cumpriram bem seus papéis. Destaque pro rapper paulista, que no meio de duas bandas de reggae conseguiu manter o público (a maioria ali não conhecia) ligado e na vibe certa pro show do Ponto, que como sempre contagiou a galera, sempre receptiva às suas letras e pregações religiosas. A fé e entrega com que os fãs cantam suas músicas é de arrepiar, e desta vez não foi diferente.

Além da seca que se abateu nos bares do Teatro, outro aspecto que deixou a desejar no evento foi, em partes, a galera que compareceu. Na pista normal, muita gente assistia o show parado, contemplando apenas, sem muitas reações. Nem todo mundo parecia estar ali pelos shows em si, e sim pela chance de rever a galera que se encontra todos os dias no pátio da escola, ou na faculdade. Fora isso, a Pista Premium foi animada, e as rodinhas rolaram sem grandes incidentes. 

Ficou claro também que o espaço ali é muito subaproveitado. Apesar da aparente revitalização com os grandes shows marcados neste mês, alguns cantos do Teatro estavam cheios de moradores de rua dormindo, o que é um sinal do descaso da prefeitura com aquela região, com as pessoas, e com a obra de Niemeyer. Faltou sensibilidade aos produtores do evento, para evitar o contraste de

O Show

Para quem acreditava que o discurso do Planet Hemp não faria mais sentido nos dias de hoje, o vídeo do Away exibido antes da banda entrar no palco esclareceu: Sim, ainda há pelo que lutar no que diz respeito à questão das drogas no Brasil. Principalmente no momento em que os números mostram que a Guerra contra o tráfico mata mais do que a própria droga, e manifestações pacíficas como a Marcha da Maconha é reprimida sem motivo aparente pela PM. O vídeo exibido era esse:


O discurso do Away serviu pra inflamar a galera. Logo se ouvia a introdução de "Legalize Já", igualzinha à do MTV ao vivo de 2000. O show se divide em 3 atos, o primeiro, intitulado ""O Usuário e a Luta pela Legalização da Maconha" despejou pedradas do álbum usuário e incendiou, talvez literalmente, o Teatro, com "Dig Dig Dig", "Deis das seis", "Phunky Budha", "Mary Jane" e outras. No segundo ato, chamado "Os cães ladram, mas a caravana não para", teve as músicas do segundo álbum,  que leva o mesmo nome, de 1997. 

Não me perguntem o repertório completo, pois não levei canetinha pra anotar, e apesar de não ter fumado durante os shows, fiquei cansado demais pra memorizar tudo. estava mais preocupado em participar das rodinhas de pogo. Me lembro que neste segundo ato, o clima ficou mais ameno, com músicas como "Eu bebo sim" e "Nêga do cabelo duro", quando eu fiquei um pouco com sono. 

A banda inteira mostrou o habitual entrosamento, e ótimo desempenho nas músicas mais pesadas durante o show inteiro. Formigão no baixo e Rafael Crespo na guitarra tocaram o fino, e Pedrinho mandou muito também na bateria. Apesar do local amplo e aberto, o som estava bem alto e equalizado, dava pra ouvir bem de todos os pontos da arena. Já D2 estava claramente se divertindo muito no palco.

Aparentemente cansado do show em Brasília no dia anterior, compensou com bom humor seus lapsos de memória em algumas letras, e muitas vezes seu vocal foi ofuscado pela voz de B Negão, ainda em plena forma. Talvez pelo estilo diferente que os dois seguem hoje, B Negão estivesse mais favorecido. O terceiro ato fechou começou como se fosse o primeiro, toda a banda parecia ainda com muita energia e a fim de tocar pra galera. Os momentos de auge não poderiam deixar de ser os hinos "Mantenha o Respeito", "Contexto" e "Queimando Tudo", todas na ponta da língua até mesmo da galerinha do recreio. 

Talvez esse seja o maior trunfo desta turnê do Planet, a camaradagem e o clima descontraído de empatia que se cria entre banda e plateia, que permitiu até que D2 confessasse em um dado momento que tinha "se vendido", sem receber qualquer tipo de vaia ou coisa do gênero, apenas risos. Com o show, o Planet confirma a falta que uma banda autêntica faz no cenário nacional, e reafirma sua importância como referência para muitas bandas e artistas de hoje. 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Boas novas no Rap carioca

Mc Marechal na Hip-Hop Trip
Foi uma noite que, daqui a uns anos, os presentes lembrarão contando vantagem aos amigos que não foram, por terem visto ali, num simples teatro, pertinho de casa, um capítulo importante da história do Rap carioca. Em shows vigorosos e contagiantes, nomes como Sant, Mr Break e Filipe Ret se juntaram a Marechal, atração principal da noite do dia 1º de novembro no Teatro Agildo Ribeiro, no Méier, na primeira edição da Hip-Hop Trip.

A casa não demorou a encher. Muitos na expectativa do show principal, mas também dispostos a ver um encontro legítimo do Hip-Hop na Zona Norte, cultura que vem sendo resgatada aos poucos com as rodas culturais ali perto, que têm reunido uma galera boa e ajudado a fortalecer a cultura. O show de abertura do Versólogos serviu pra esquentar o público, que também admirava a arte de Bruno Zagri e seu grafite ao lado do palco.

MC Sant, de apenas 17 anos, fez sua apresentação depois da primeira eliminatória da batalha de MCs, e mostrou porque é apontado por muitos do ramo como um dos nomes mais talentosos  do novo rap carioca. O jovem MC mostrou energia e personalidade em cima do palco, e com certeza conquistou ali mais alguns fãs.

Depois foi a vez de Filipe Ret, outro show muito aguardado, afinal o cara já tem uma boa quantidade de fãs na internet, e estava prestes a estrear clipe na Mtv. Suas letras mais famosas, Neurótico de Guerra e Só precisamos de nós, levantaram de vez a galera, e deixaram um clima ótimo para o show seguinte, de Mr Break.

Filipe Ret
Break, um dos maiores produtores de beat do Rio de Janeiro (quiçá do Brasil), mostrou segurança em seu show, no qual cantou boa parte de seu EP recém-lançado, Yin-Yang, e confirmou a boa expectativa em relação a sua apresentação. É claro o salto de qualidade quando se compara as músicas produzidas por Break com as de outros rappers, e sua naturalidade com o microfone em cima do palco, fruto de sua experiência.

Por fim, Marechal conduziu o público à catarse final que todos esperavam. Mesmo com uma forte gripe, deu o sangue enquanto esteve em cima do palco, e honrou o nome que já construiu no cenário nacional.não faltaram seus maiores Hits "Tem que ser sangue Bom", "Sua Mina ouve meu Rap", "É  a Guerra Neguinho" e outras que todo mundo ali sabia na ponta da língua.

Já tinha visto outro show do Marechal, na Xarpi do ano passado, no Circo Voador, e ambos os shows foram cheios de energia. Marechal consegue atrair as atenções de quem assiste e contagiar o público com a garra que demonstra ao declamar cada verso de suas letras. Não dá pra duvidar que ele canta com o coração, e isso talvez seja o principal motivo da cumplicidade que os fãs tem com o rapper.

Entre uma pausa e outra, Marechal reforçou sua crítica a MCs que, segundo ele, hoje fazem o que protestavam contra no início da carreira. Indireta pra alguém ou não, o recado foi dado e todo mundo ali parecia saber pra quem era. O momento mais emocionante do show e da noite foi na última música, quando Marechal chamou a galera toda pra cima do palco, todos se confundindo como diz o refrão de sua música e slogan principal, "Um Só".
Galera que lotou o Teatro Agildo Ribeiro
A Hip-Hop Trip foi um marco. Trouxe nomes consagrados, nomes em ascensão e jovens promessas do Rap carioca. Quem foi curtiu, quem cantou se emocionou. E ficou a impressão de que o Hip-Hop na zona norte precisava desse empurrão pra se consolidar além das fronteiras de Madureira, mesmo sem exposição na mídia tradicional pra se manter ou pra atingir seu público.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Às margens da Avenida Brasil

Dona Hilda e Teresa Cristina

Mesmo rivalizando as atenções com as aventuras de Carminha no último capítulo de Avenida Brasil, na sexta, Teresa Cristina e sua mãe, Dona Hilda, fizeram um show emocionante no Teatro Rival, principalmente para aqueles mais saudosistas. Elas se apresentaram na sexta e no sábado, (19 e 20/10) às 19h30, ou seja, a tempo de ligarem os telões da casa após o show para o público assistir ao final do folhetim global que parou o país.


Eu não estava muito preocupado com a novela. Fui ao show muito por curiosidade em relação ao repertório e à performance de Teresa, a quem ainda não tinha visto cantar ao vivo, mas também muito pela vontade da minha namorada.

Teresa foi quem entrou primeiro no palco, e logo de cara anunciou que, diferente do anunciado, não seria ela a protagonista do show, e sim sua mãe, que foi quem escolhera todo o repertório. Teresa confidenciou ao público também que a realização daquele show era uma vontade antiga de sua mãe, e o que mais queria era vê-la feliz.

Teresa começou cantando duas músicas, mas logo deu espaço à verdadeira estrela da noite,  Dona Hilda, que tomou conta do palco. Acompanhadas de apenas dois violões, a voz (de ambas) foi a grande protagonista da noite, em homenagem a grandes cantores da época de ouro do rádio, quando o importante para um cantor ou banda fazer sucesso não era o visual, e sim o gogó. Talvez algum espectador mais jovem possa criticar um exagero nas canções tristes escolhidas por Dona Hilda, que fez com que o show parecesse se arrastar em algumas canções.

Todavia, a maioria absoluta presente no show era de usuários do Riocard Sênior, e essa galera aplaudia fervorosamente Dona Hilda a cada clássico de Maysa, Nélson Gonçalves, Elizeth Cardoso e Dalva de Oliveira. Mais ou menos na metade do show, Teresa reapareceu para dar uma quebrada no ritmo cadenciado da mãe, e cantou dois sambas mais animados em dueto com sua progenitora.

Destaque para o momento de emoção de Hilda ao cantar "A volta do Boêmio" de Nélson Gonçalves. Pena que as duas tiveram que acelerar o final do show por causa da novela e cortaram duas músicas. Mas foi válido. E também foi legal ir a um show onde a plateia grita "Bacana!" em vez de qualquer palavrão.


sábado, 6 de outubro de 2012

Três pontos garantidos


Deu a impressão que Criolo e sua banda foram ao Vivo Rio nesta sexta-feira, dia 5 de outubro, a fim de resolver a parda logo nos minutos iniciais. Deu certo. Sem muita enrolação, grandes hits do Nó na Orelha abrindo o show, e uma canja inspirada de Ney Matogrosso, rapper e banda ganharam rapidamente a plateia, que não lotava  o Vivo Rio, mas esbanjou energia em pouco mais de uma hora de show.

Às 23h30min, pode-se dizer que pontualmente (considerando os costumes cariocas), pois os portões tinham sido abertos apenas uma hora antes, Dan Dan chamava a galera a largar suas cervejas do lado de fora do Vivo Rio para ver a apoteose de Criolo no Rio de Janeiro. O show foi curto, é verdade, mas não via-se uma alma insatisfeita ao acender das luzes.

Com grandes sucessos logo no início, "Mariô", depois "Sucrilhos" e "Subirusdoistiozin", Criolo poderia até declamar um verso do Ara Ketu, que o sucesso do show estaria garantido. Não faltaram também pedradas como "Grajauex" e outras músicas conhecidas como "Bogotá", "Vasilhame", "Lion Man" e "Não existe amor em SP" (não me cobrem o set list completo, pois eu não tinha papel pra anotar e nem tenho a memória tão boa). Performático, o cantor usou e abusou do espaço do palco durante todo o espetáculo, no qual usou três roupas diferentes. Muita presença, energia na voz e emoção nos gestos.

Ney Matogrosso foi convidado a subir no palco para cantar "Freguês da Meia-Noite", e foi muito bem, com sua já conhecida e esperada performance cheia de expressão corporal. Em seguida, largou "Preciso me Encontrar", de Cartola, no colo da galera, e devolveu o show pra Criolo em grande estilo.



Também há de se destacar a objetividade das falas de Criolo entre as músicas: sem encheção de saco em véspera de eleição, o recado já está presente nas letras de suas músicas. Talvez o único momento em que houve uma menção, mesmo que indireta, ao período eleitoral, foi no momento em que, emocionado pelo carinho do público carioca, declarou: "em São Paulo tá foda.." o que a galera de imediato entendeu como senha para puxar um coro de "Freixo, Freixo!".

Criolo, Dan Dan , Ganjaman e banda confirmaram seu poder de fogo. A banda se mostrou extremamente talentosa e afiada, e o público correspondia a cada chamada de Criolo ou Dan Dan. Se a pouca duração do show tinha o objetivo de deixar os cariocas com gostinho de quero mais, conseguiram.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Com o dedo na ferida

No último mês tivemos, na mesma semana, as duas cerimônias de premiação mais importantes do Brasil: O Prêmio Multishow e o VMB. Com estilos bem diferentes, os dois eventos conseguiram, de uma forma ou de outra, mostrar e consolidar a nova cara da música brasileira, sem muita frescura, e com mais atitude do que se via há mais ou menos cinco anos atrás no cenário nacional.

A mais premiada novidade, muito bem-vinda, por sinal, foi Gaby Amarantos. Com música estourada na novela das sete da Globo, a paraense provou que há vida depois do Calypso no norte do Brasil, e que as gordinhas também têm vez (Adele ainda tá na moda, né?). O outro destaque ficou por conta do rap nacional, que, especialmente no VMB, assumiu seu papel de protagonista na mensagem e na atitude, com consciência política e social. Criolo e Emicida, ambos premiados uma vez, fizeram posicionaram-se contundentemente contra as desocupações e incêndios "suspeitos" nas favelas de São Paulo, deixando claro que o momento ali não era de festa.

                                       
Sobre a produção, montagem e andamento dos eventos em si, cada um cumpriu bem a  função a que se propôs. O VMB e a MTV sempre tiveram uma pegada mais inovadora, de lançar tendências, e é isso que se nota ao se olhar a relação de indicados e premiados.

Nomes como Projota, BNegão, Waldo, Cascadura, Vivendo do ócio, CW7, Rashid e Teatro Mágico têm até relativo sucesso em seus nichos, mas não são conhecidos do grande público, tipo a minha empregada ou a sua tia que assiste Avenida Brasil e TV Fama. Já o Prêmio Multishow apelou para Ivete Sangalo como apresentadora (que foi bem mais ou menos, a propósito) ao lado de um outro comediante ainda  mais sem graça e puxa saco de artista, e apostou em nomes já consagrados da música brasileira como Michel Teló, Paula Fernandes, Thiaguinho, Ana Carolina, NX Zero e a própria Ivete entre os indicados e premiados.

Não acho que cabe aqui comentar se os prêmios foram ou não justos, por que isso é uma questão que se limita ao gosto e opinião de cada um dos jurados, ou do público que votou. De unanimidade (justa) nas duas premiações somente Gaby Amarantos, que dá uma arejada na cena pop nacional.

Já no que diz respeito aos shows, o VMB sobrou em relação ao Prêmio Multishow. O canal da Globosat apostou em parcerias de novos talentos e nomes consagrados como Ana Carolina e a boa Jesuton, que tentou, mas não conseguiu salvar ninguém do tedioso "É isso aí". O Titãs fez uma apresentação boa com "O Terno", e Gaby Amarantos foi muito aplaudida em sua apresentação com Lia Sophia e Felipe Cordeiro (Quem?²). Ivete fechou a noite cantando com a banda Filhos de Jorge, enfim, nada que fizesse o coração do público bater mais forte.

Em compensação, a MTV investiu pesado nas apresentações musicais. Botou logo de saída um showzaço do Planet Hemp com direito a D2, B Negão em um show de 17 minutos pra ninguém botar defeito. Emicida tocou "Dedo na Ferida" com Rashid e uma banda de respeito: Igor Cavalera, Lúcio Maia (Nação Zumbi) e Joe (Pitty). Ainda teve ConeCrew Diretoria, com um show animado, mas que acabou em segundo plano por causa da grandiosidade dos outros shows. Agridoce, da Pitty, Gal Costa e Karina Buhr também fizeram apresentações de muito bom gosto.

Pra finalizar, um show épico de meia hora do Racionais, como nunca antes na história de outras premiações no Brasil:


Por fim, cada premiação pode aprender um pouco com a outra. A Mtv não precisa ser tão avessa ao que faz sucesso com o povão. Apresentar indicados tão desconhecidos do público pode diminuir e um pouco a grandiosidade da premiação e esvaziar o evento. Ao mesmo tempo, o Prêmio Multishow poderia arriscar mais e não simplesmente ignorar alguns novos nomes que mereciam mais indicações, principalmente do rap nacional, e outros da cena independente.

Nessa sexta-feira tem show do Criolo no Vivo Rio. estarei lá, e pretendo escrever aqui minhas impressões sobre o show e tudo mais. Dia primeiro de novembro tem também show do MC Marechal no Méier, junto com outras revelações do rap carioca. Nas próximas semanas eu explico tudo direitinho por aqui.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Salto de qualidade

As duas últimas semanas foram cheias de lançamentos de clipes de figuras consagradas do rap nacional: Marcelo D2, Criolo e Racionais, ícones de momentos diferentes da nossa música, chegaram com produções muito bem acabadas, um salto de qualidade que há muito não se via por aqui.

Vamos ao que interessa, os tais lançamentos: Marcelo D2 - Eu Já Sabia 


A música e o vídeo têm a participação de Stephan, filho do D2, e do vocalista do Ponto de Equilíbrio, Hélio Bentes. Temos que admitir que a produção do conjunto música/clipe é muito boa, há uma nítida evolução no som, o beat empolga, mas a letra... bem, a letra não é lá grandes coisas, principalmente a parte que o próprio D2 canta. Em sua parte, Stephan mostra mais atitude e energia que o pai, que já parece (fisicamente e mentalmente) cansado para escrever uma letra que traga algo novo ao público. Um trecho:
O mundo nunca deu mole pra mim /O que é meu é meu e é fato aqui não tem tempo ruim/ Ele disse: -Cash Rules Everything Around Me,C.R.E.A.M!...não
Quem disse que precisa ser assim / É por que o tempo fechou e você é bola da vez! /Ele já disse o blá blá fica por conta de vocês!/ 
E por aí segue um amontoado de versos desconexos e provérbios soltos no meio da letra, ao melhor estilo Chorão, sem fazer muito sentido e sem acrescentar muita coisa à mensagem da letra, e sem um objetivo claro. É só o velho, preguiçoso e batido "eu sou foda/ batalhei muito pra chegar aqui/ corra atrás do que é seu/ os otários vão se ferrar no final/ etc..., um clichê do rap em geral (que às vezes é bem feito). 
No final da letra ele diz: "minha família já respira rap antes de você nascer" sim, é verdade, D2 é um cara importante pra caralho pra música nacional na década de 90 e no processo de revitalização do rap nacional a partir do "À procura da batida perfeita". Fez muitas músicas boas recentemente e isso nos impede de dizer que ele está ultrapassado. Contudo, nesta letra, deixou a desejar.

Criolo - Mariô


Gostar do Criolo é moda? sim, mas ao menos é uma moda boa. Ele não tem culpa disso, e a princípio parece não se abalar. Até agora, o rapper manteve a mesma postura humilde e competente em suas apresentações na TV e em shows. O vídeo é belíssimo, tem efeitos gráficos muito bem produzidos em cima de uma letra ótima, com ref(v)erências a outros ícones do rap nacional como Sabotage e Racionais MC´s. Nele o próprio cantor representa o protagonista da história, um mendigo/boia fria/aventureiro, ou qualquer coisa do tipo, que tem poderes mágicos e foge em uma linha do trem em meio a um bombardeio (isso tudo representa alguma coisa abstrata que eu não consegui decifrar, me desculpem). A música faz parte do ótimo "Nó na Orelha", já super premiado e aclamado por crítica e público. Parece que todos os elogios já feitos a ele vão continuar por um bom tempo.

Racionais Mc´s: Marighella - Mil Faces de um Homem Leal

Sensacional. Mano Brown  e o Racionais dão uma aula de letra, interpretação e capacidade de reinvenção. Eles ainda conseguem ser os melhores mesmo diante de tanta gente nova muito boa que surgiu nos últimos anos. A música já tinha sido lançada no ano passado, para o filme sobre Carlos Marighella, militante comunista morto em uma emboscada dos militares na década de 70. O clipe tenta reviver esta parte meio esquecida da nossa história, e traz ótimas atuações de KL Jay, Brown e companhia. Com uma letra ágil e forte, que te deixa com frio na barriga, tal qual outros clássicos do grupo, como Diário de Um Detento ou Capítulo 4 Versículo 3, o Racionais parece fazer rap como o Barcelona joga futebol: simples e perfeito. Uma batida que te faz acompanhar cada momento da música com o pescoço e uma letra que rasga os nossos livros de história.  Quando você pensa que não tem mais como eles fazerem alguma letra foda, o Racionais vem e mostra mais uma vez o caminho aos mais jovens. Não é à toa que são quem são. 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Entrevista com Gog, o Poeta

Vou aproveitar este espaço para publicar uma entrevista que fiz em maio de 2010 (pra uma revista online que acabou não sendo publicada) com o Genival Oliveira Gonçalves, o GOG. Ele é um dos mais criativos e inteligentes artistas do rap nacional,e tem uma boa quantidade de letras muito inteligentes, cheias de críticas sociais e protesto. Pra quem não conhece o trabalho dele, vejam um exemplo abaixo, da música mais famosa dele, com participação da Maria Rita:

Considerem que eu ainda era um aspirante a jornalista (hoje estou formado), em uma das primeiras entrevistas da carreira, e em uma entrevista por e-mail. Isso justifica (um pouco) umas perguntas grandes demais, e outras meio clichês. Considerem também que desde a época dessas perguntas, muita coisa mudou, inclusive o contexto em que o Rap nacional hoje está inserido, mas mesmo assim os temas  permanecem atuais.

Fora tudo isso, também vale pelas ótimas respostas do GOG, que demonstrou uma posição firme em relação à grande mídia, mas otimista em relação à Internet. Também há boas declarações e análises sobre música, influências, tendências, estereótipos, exposição na mídia, entre outros. Vejam abaixo como ficou:


Qual sua maior fonte de inspiração para escrever as letras?

A vontade de transformar a realidade atual, que a principio parece imposta, mas que depende do nosso protagonismo para ser transformada.

Quem é seu maior ídolo no rap? 
O Racionais em Holocausto Urbano foi uma grande inspiração.

Rappers como você, MV Bill, entre outros, fazem show com banda, e incluem elementos de outros estilos musicais em suas músicas (samba, mpb, rock, etc.). Você vê essa tendência á mistura como um caminho que seria inevitável ao rap nacional, ou é mérito exclusivo e inovação dos rappers de hoje?
A grande revolução musical que o hip hop proporcionou teve o toca discos como instrumento vital.  Foi ele que deu popularidade, possibilidade de expressão e comunicação através da música. Eu não cantaria se não fosse essa fator. Não considero a banda uma evolução, mas uma opção, uma roupagem. Meu porto seguro é o DJ. No que diz respeito à produção musical, são as experiências que levam a novos sons, formatos, agregando idéias, estilos, ritmos, etc.

Você ainda percebe um preconceito do grande público em relação ao rap nacional?
Sim. Mas é um preconceito pelo qual todos os estilos musicais nascidos na simplicidade enfrentaram. Temos que reagir com sabedoria, criatividade e postura.

Acha que melhorou, ou piorou (desde a década de 90 mais ou menos)?
Tudo tem evoluído no período. O hip hop ocupa a cada dia um espaço de veiculação, divulgação bem mais elástico, e as pessoas passaram a entendê-lo mais.

Dois caminhos diferentes já se mostraram bem sucedidos no rap nacional:  O Racionais, que mesmo que aparecem muito pouco na mídia, e mantêm o sucesso e um público fiel até hoje, e alguns da nova geração que aparecem mais e têm conquistado um espaço cada vez maior na grande mídia, além de atingir novos públicos. Para você, qual a maneira mais inteligente de conciliar o discurso de protesto do rap dentro dos grandes meios de comunicação,  que muitas vezes representam interesses econômicos opostos ao discurso do rap? E como atingir a grande massa de pessoas que só tem acesso à informação por esses meios?

Tudo é questão de estratégia. E toda estratégia tem continuação diante dos resultados obtidos. A minha, é manter-me o mais próximo possível das minhas bases, pesquisar bastante, aprender fazendo e apresentar propostas, inovações ao cenário. Sinceramente, creio que o meu trabalho, e forma de expressar vão de encontro, ou seja, são contrários ao que o sistema quer e precisa como modelo. Toda vez que me convidam para aparições em meios de comunicação de grande audiência, percebo uma tentativa de desqualificação ou de moldagem. Estão perdendo tempo, pois não caio nessa armadilha e não tenho nenhum interesse de frequentar esses meios. penso que os primeiros locais a serem ocupados são os nossos, pois espaços não ocupados serão ocupados por ideologias dominantes. Foi isso que aconteceu no passado com os meios de comunicação, e que está exposto pra todo mundo ver hoje. No entanto, não acredito que o nosso povo só tenha acesso a esse tipo de informação ou meio de comunicação. Além de outras vias já existentes, estão surgindo novas. 

Pra você, existe um modelo ideal de enfrentar a grande mídia?
Para grande mídia a fórmula sempre será: fazer o que eles querem, ou seja, ser, ou parecer, estar bem próximo, do modelo deles. Ele vão até fazer de conta que te entendem, mas vai prevalecer o que eles querem.

Qual você acha que é o caminho que o rap deve seguir no futuro?
São várias vias, eixos a serem seguidos, mas é preciso o debate a informação e o conhecimento, para não entrar em caminhos sem volta. Infelizmente, a maioria não tem esse preparo, nem a preocupação. 

Como você encara a relação entre a internet e o Hip-hop, hoje no Brasil?
Muito interessante e em franca evolução. Vejo vários amigos e amigas do movimento, que antes eram contrários, ou não entendiam a inclusão digital e que hoje têm sites, blogs, mypace e twitter. Isso é maravilhoso.

O que você pensa sobre a diferença entre o espaço do hip hop na mídia dos Estados Unidos e no Brasil, ainda é um problema? Você vê algum progresso nesse sentido?

O Americano, historicamente, trabalha muito bem com a mídia, com o digital, não poderia ser diferente. Temos muito a aprender, mas não podemos cair no erro de pensar que tudo que é bom pra eles é pra nós e nem que o digital é salvação da lavoura, trata-se de uma opção.
Temos que saber que existem particularidades, e respeitá-las.

Para você, o estereótipo dos rappers americanos (fora algumas exceções) afeta de forma negativa ou positiva os jovens no Brasil?
Depende da leitura que se faz. Tem gente que é influenciado pelo estilo, outro pela letra, tem gente que tira uma lição positiva, já outros se deixam influenciar pela negatividade, e por aí vaí. O que é certo é que temos que nos espelhar é em nós mesmos e na nossa realidade. O hip hop brasileiro já tem tempo e amadurecimento bastante para andar com as próprias pernas.

Pra você, qual a função principal, e a importância do rap para a sociedade brasileira?

Trabalhar na transformação sociocultural do seu público alvo, as periferias

segunda-feira, 16 de abril de 2012

I hope you´re not too involved at all

É bom que vocês não tenham se apegado muito, porque o show do Arctic Monkeys foi um espirro de tempo perto do Foo fighters no dia anterior, e nada efusivo em comparação à performance de Dave Grohl. Nada que diminuísse a exuberância técnica da banda, que toca ao vivo com uma frieza e perfeição de cd gravado. A surpresa da apresentação foi o moicano de Alex Turner, que durante o show foi um pouco menos tímido do que de costume, interagiu moderadamente com a platéia, e mostrou energia e atitude quando foi exigido.

O som dos Monkeys foi sensacional, e as músicas do novo cd ficaram muito boas ao vivo, o que era uma dúvida minha devido à atmosfera um pouco sombria da maioria das músicas. "Don´t sit down Cause i´ve moved your chair" começou o show bem, e a banda soube dosar grandes sucessos com outras músicas do disco novo, para não esfriar a galera que resistia à chuva fraca que caía naquele domingo.

Não houve quem não dançasse e pulasse em "Fluorescent Adolescent" e "I bet that youlook good on the dance floor", as bolas de segurança da banda. Como fã, senti falta de Leave before the lights come on e  A Certain Romance, mas me parece que a banda não se preocupa muito com clichês e não pretende se tornar dependente de algumas músicas em shows.

Há de se ressaltar também a energia do baterista Matt Helders, firme e vibrante emmúsicas como "The View From The Afternoon" e "Brick By Brick". O restante da banda compõe bem o meio de campo, sem comprometer o funcionamento da equipe, mas também sem brilhar muito. O encerramento com "505" deixou um gostinho de quero mais e uma saudade imediata assim que os roadies entraram no palco para retirar os equipamentos. Depois de um show desse, sempre fica a impressão de que "eles poderiam ter cantado mais"(talvez seja esse o segredo do sucesso), mas mesmo assim valeu.

sábado, 14 de abril de 2012

A apoteose de Dave Grohl

O Show do TV On The Radio parecia interminável para os mais de 70 mil presentes no Jóquey de SP, mas ao final do primeiro dia de Lollapalooza tudo pareceu valer a pena. Dave Grohl e seus companheiros de banda conseguiram em todos esses anos de carreira fazer o que poucas bandas na história conseguiram: fazer do Foo Fighters uma banda admirada por quase 100% dos fãs de rock do mundo. E isso pôde ser provado no show do dia 7 de abril no Lollapalooza Brasil, mesmo depois de mais de 11 anos de ausência dos palcos brasileiros, o Foo só conseguiu ser mais idolatrado, como se fosse uma torcida que espera por um título por muito tempo e isso faz com que ame ainda mais seu time.

Como representante dessa legião de fãs ansiosos pelo retorno da banda, achei a escolha do setlist muito feliz, fora Hey Johnny Park! (que não sei por que cargas d'água tocam até hoje). Foram tocadas músicas de todos os CDs, todas as fases, todos os singles, as músicas mais famosas no momento certo. Um início arrasador com All My Life, e um final emocionante com a esperada e fuderosa Everlong, sem aquelas pausas gigantescas que Dave estava ficando viciado em fazer (e fez em algumas músicas nesse show).

Dave conseguiu prender a atenção do público durante as duas horas e meia de show. Também fez rir em sua imitação de banda iniciante, conversando com o público como se ninguém os conhecesse. O momento dos solos também foi bem conduzido, principalmente a parte dedicada ao tímido Nate Mendel, e também com o "tiozão" Pat Smear, que deu uma de sem noção, quebrando a guitarra e chutando pelo chão. Dave brincou, avisando às crianças que "precisa-se de muito treino para fazer isso". Antes do bis, também foi uma boa sacada a conversa/negociação entre Dave e o público sobre quantas músicas eles cantariam ainda. Taylor Hawkins jogou do lado da galera, e "conseguiu" mais cinco músicas, duas delas com a também divertida Joan Jett.

Tecnicamente, o show não deixou a desejar em nenhum momento. Todos perfeitos e muito bem sintonizados, com toda a maturidade sonora alcançada ao longo de seis álbuns e tantos anos de estrada. Taylor, Chris, Nate e Dave mostram um entrosamento que, se não os faz candidatos ao posto de melhor banda, com certeza os consagra como uma das mais eficientes e carismáticas do rock atual. Veja abaixo o set list completo, copiado da Rolling Stone Brasil, porque eu não lembro tudo de cabeça né.

Set List:
“All My Life”
“Times Like These”
“Rope”
“The Pretender”
“My Hero”
“Learn to Fly”
“White Limo”
“Arlandria”
“Breakout”
“Cold Day in the Sun”
“Long Road to Ruin”
“Big Me”
“Stacked Actors”
“Walk”
“Generator”
“Monkey Wrench”
“Hey, Johnny Park!”
“This is a Call”
“In the Flesh?”
“Best of You”

Bis:
“Enough Space”
“For All the Cows”
“Dear Rosemary”
“Bad Reputation”
“I Love Rock 'n' Roll”
“Everlong”

terça-feira, 10 de abril de 2012

Corra, Lolla, Corra! (pra pegar o metrô)



Dedicarei o valioso espaço dos primeiros posts deste estimado blog para fazer observações gerais sobre o Lollapalooza Brasil, festival que aconteceu neste último fim de semana em São Paulo, com base no que vi e vivi nestes dois dias.

1 - Transporte Público - Começando pelas falhas, (porque sou jornalista e qual seria minha função no mundo senão falar mal das coisas?) quem foi ao primeiro dia sentiu que a cidade (ou a Prefeitura) de São Paulo não estava dando lá tanta importância ao evento, apesar da grande movimentação gerada pelo Festival. O transporte público manteve sua programação normal: O metrô fechou 1h da manhã, e havia poucos ônibus rodando, o que gerou um caos na estação do Butantã, a mais próxima do Jóquei, onde simplesmente não dava pra entrar na estação pela quantidade de gente aglomerada em apenas uma das entradas disponíveis(foto).

Muitos desistiram do metrô e se espalharam pelas ruas atrás de algum táxi que fizesse a gentileza de parar, ou algum ônibus que fizesse a gentileza de passar. Não sei se posso me considerar sortudo por conseguir um táxi depois de tentar por duas horas, mas foi assim que me senti depois que entrei naquele carro branco. Sensação logo cortada no momento de pagar os quase R$ 40 que o taxímetro marcou de lá até o hotel onde eu estava hospedado. Naqueles momentos de angústia, acho que até o maior fã do Foo Fighters deve ter reclamado do excepcional show de duas horas e meia que atrapalhou a volta pra casa. Além disso, poucos funcionários do evento sabiam dar informações precisas sobre ônibus ou outros meios de sair dali.

No segundo dia, talvez por ter menos gente (cerca de 60 mil, segundo informações), a volta foi mais tranquila, pelo menos pra mim, que voltei andando muito rápido até o metrô assim que os Macacos do Ártico deram seus últimos acordes, tudo porque a informação era que a estação fecharia exatamente 0h22 (não me pergunte o por quê do 22). Ainda assim peguei uma fila escrota antes da roleta.

2 - Preços das fichas - Amigo, espero que nunca seja considerado normal pagar R$ 8 num copo de 400 ml de cerveja. Assim como em um Hot Pocket da Sadia. Além do mais, você ainda corria o risco de algum dos ambulantes da Heineken encher teu copo de espuma e falar que "não tem jeito".

Título e Trocadilho

Não se impressionem pelo trocadilho sagaz no título deste humilde blog. Os nomes mais óbvios para blogs sobre música não estavam disponíveis, foram usados por espíritos de porco sem luz que já não escreve nada desde o século passado. A intenção deste espaço aqui é, pretensiosamente, expor minhas impressões sobre shows, CDs, bandas, músicas, lançamentos e quaisquer outros assuntos relacionados à música.

O diferencial daqui é que o debate vai estar sempre aberto, sem frescuras. Como não recebo e não devo nada a ninguém, posso falar mal à vontade do que bem entender (o que deve ser regra, de acordo com a minha fama de do contra), e falar sobre shows que normalmente não são pautas nos espaços tradicionais, tipo um show de pagode, quem sabe de funk ou de forró na esquina da sua rua. Onde quer que eu vá, qualquer show que eu assista e ache conveniente contar e descrever aqui, assim será. O critério é simples: É música, cabe. e sem dó.