Fora tudo isso, também vale pelas ótimas respostas do GOG, que demonstrou uma posição firme em relação à grande mídia, mas otimista em relação à Internet. Também há boas declarações e análises sobre música, influências, tendências, estereótipos, exposição na mídia, entre outros. Vejam abaixo como ficou:
Qual sua maior fonte de
inspiração para escrever as letras?
A vontade de transformar a
realidade atual, que a principio parece imposta, mas que depende do nosso
protagonismo para ser transformada.
Quem é seu maior ídolo no rap?
O
Racionais em Holocausto Urbano foi uma grande inspiração.
Rappers como você, MV Bill, entre outros, fazem show com banda, e incluem
elementos de outros estilos musicais em suas músicas (samba, mpb, rock, etc.).
Você vê essa tendência á mistura como um caminho que seria inevitável ao rap
nacional, ou é mérito exclusivo e inovação dos rappers de hoje?
A
grande revolução musical que o hip hop proporcionou teve o toca discos como
instrumento vital. Foi ele que deu popularidade, possibilidade de
expressão e comunicação através da música. Eu não cantaria se não fosse essa
fator. Não considero a banda uma evolução, mas uma opção, uma roupagem.
Meu porto seguro é o DJ. No que diz respeito à produção musical, são as
experiências que levam a novos sons, formatos, agregando idéias, estilos,
ritmos, etc.
Você ainda percebe um preconceito do grande público em relação ao rap
nacional?
Sim.
Mas é um preconceito pelo qual todos os estilos musicais nascidos na
simplicidade enfrentaram. Temos que reagir com sabedoria, criatividade e
postura.
Acha que melhorou, ou piorou (desde a
década de 90 mais ou menos)?
Tudo
tem evoluído no período. O hip hop ocupa a cada dia um espaço de veiculação,
divulgação bem mais elástico, e as pessoas passaram a entendê-lo mais.
Dois
caminhos diferentes já se mostraram bem sucedidos no rap nacional: O Racionais, que mesmo que aparecem muito
pouco na mídia, e mantêm o sucesso e um público fiel até hoje, e alguns da nova
geração que aparecem mais e têm conquistado um espaço cada vez maior na grande
mídia, além de atingir novos públicos. Para você, qual a maneira mais
inteligente de conciliar o discurso de protesto do rap dentro dos grandes meios
de comunicação, que muitas vezes
representam interesses econômicos opostos ao discurso do rap? E como atingir a
grande massa de pessoas que só tem acesso à informação por esses meios?
Tudo
é questão de estratégia. E toda estratégia tem continuação diante dos
resultados obtidos. A minha, é manter-me o mais próximo possível das minhas
bases, pesquisar bastante, aprender fazendo e apresentar propostas, inovações
ao cenário. Sinceramente, creio que o meu trabalho, e forma de expressar vão de
encontro, ou seja, são contrários ao que o sistema quer e precisa como modelo. Toda
vez que me convidam para aparições em meios de comunicação de grande audiência,
percebo uma tentativa de desqualificação ou de moldagem. Estão
perdendo tempo, pois não caio nessa armadilha e não
tenho nenhum interesse de frequentar esses meios. penso que os primeiros locais
a serem ocupados são os nossos, pois espaços não ocupados serão ocupados por
ideologias dominantes. Foi isso que aconteceu no passado com os meios de
comunicação, e que está exposto pra todo mundo ver hoje. No entanto, não
acredito que o nosso povo só tenha acesso a esse tipo de informação ou meio de
comunicação. Além de outras vias já existentes, estão surgindo novas.
Pra
você, existe um modelo ideal de enfrentar a grande mídia?
Para
grande mídia a fórmula sempre será: fazer o que eles querem, ou seja, ser, ou
parecer, estar bem próximo, do modelo deles. Ele vão até fazer de conta que te
entendem, mas vai prevalecer o que eles querem.
Qual
você acha que é o caminho que o rap deve seguir no futuro?
São
várias vias, eixos a serem seguidos, mas é preciso o debate a informação e o
conhecimento, para não entrar em caminhos sem volta. Infelizmente, a maioria
não tem esse preparo, nem a preocupação.
Como você encara a relação entre a internet e o Hip-hop, hoje no Brasil?
Muito
interessante e em franca evolução. Vejo vários amigos e amigas do movimento,
que antes eram contrários, ou não entendiam a inclusão digital e que hoje têm
sites, blogs, mypace e twitter. Isso é maravilhoso.
O que você pensa sobre a diferença entre o espaço do hip hop na mídia dos
Estados Unidos e no Brasil, ainda é um problema? Você vê algum progresso nesse
sentido?
O
Americano, historicamente, trabalha muito bem com a mídia, com o digital, não
poderia ser diferente. Temos muito a aprender, mas não podemos cair no erro de
pensar que tudo que é bom pra eles é pra nós e nem que o digital é salvação da
lavoura, trata-se de uma opção.
Temos
que saber que existem particularidades, e respeitá-las.
Para você, o estereótipo dos rappers americanos (fora algumas exceções) afeta
de forma negativa ou positiva os jovens no Brasil?
Depende
da leitura que se faz. Tem gente que é influenciado pelo estilo, outro pela
letra, tem gente que tira uma lição positiva, já outros se deixam influenciar
pela negatividade, e por aí vaí. O que é certo é que temos que nos espelhar é
em nós mesmos e na nossa realidade. O hip hop brasileiro já tem tempo e
amadurecimento bastante para andar com as próprias pernas.
Pra você, qual a função principal, e a importância do rap para a sociedade
brasileira?
Trabalhar
na transformação sociocultural do seu público alvo, as periferias