quinta-feira, 24 de março de 2016

Novas cores para os tons de Cartola

Foto tirada do site oficial da Teresa Cristina, em show no Theatro Net Rio 
Sai a voz masculina, típica de seresta e entra uma voz feminina grave e firme. Teresa Cristina. Para interpretar as músicas de Cartola é necessário um pouco mais do que apenas soltar a voz, pede-se personalidade e profundidade, senão, não convence. E olha que outros artistas têm visitado o repertório do sambista com frequência nos últimos anos, já que ouvir e cantar Cartola virou cult.

No show da última terça-feira, 22 de março, no Teatro da UFF, em Niterói, a sambista carioca, além do seu já reconhecido talento como intérprete, mostrou sensibilidade e sabedoria na escolha do repertório. Sem deixar as clássicas de lado, salpicou algumas canções belíssimas não tão conhecidas do público mais novo de Cartola.

O show é intimista, só voz e violão, que fica a cargo de carlinhos sete cordas, figura conhecida no mundo do samba, que faz participações em shows de outras grandes figuras, como Beth Carvalho. Em suas interações com o público entre as músicas, Ao longo de pouco mais de uma hora de show, Teresa mostra usou bom humor e jogo de cintura para driblar qualquer comentário que parecesse político para não acirrar os ânimos de coxinhas ou petralhas que deveriam estar presentes na plateia aguardando somente o soar do gongo para começar uma batalha. Apesar de a cantora já ter escolhido seu lado nesta briga. "Vamos falar de coisas amenas só. Vai chover, né?" conversou ela com o público, de cima do palco.

                                                          Trecho de As Rosas Não Falam

Desinibida, não hesitou em se entregar à emoção logo no início do show em o mundo é um moinho. Mesmo gripada (o que acredito que ninguém notaria se a própria não avisasse que estava tomando chá de gengibre), segurou muito bem um show em que só se ouvem voz e violão, o que é um desafio e tanto, para alguém acostumado com rodas de samba e bandas mais barulhentes. Em um bom número de vezes, Teresa teve que dosar sua voz para não ultrapassar o tom das músicas, e também para não ficar desproporcional para o tamanho do Teatro da UFF.

                                                                      Minha

Com habilidade, a sambista deu a leveza necessária a músicas bem tristes de Cartola. Em "Tive Sim", por exemplo, Teresa arriscou uma versão ao contrário, na qual a mulher conta para o seu companheiro que teve no passado um outro amor com o qual também era bem feliz. Teresa também se aproveita bem da proximidade física com o público para conversar, usar e abusar dos olhares, caras e bocas durante a interpretação das músicas. A proximidade era tanta que ela chegou a pedir às pessoas da primeira fileira que avisassem caso o batom estivesse borrado e manchado os dentes.

Como não podia deixar de ser, também teve brincadeira com o fato de uma portelense cantar um repertório que exalta tanto a Mangueira. Acima de paixões clubísticas, partidárias e de samba, Teresa já conquistou público e crítica com esse show, e não precisa de mais esses elogios que faço aqui. Mas acontece.