terça-feira, 20 de outubro de 2015

O Brasil em voz e violão

Gil e Caetano na Suiça    (Foto: REUTERS/Denis Balibouse)
Seria leviandade dizer que Caetano Veloso e Gilberto Gil se limitam à MPB. Quem viu qualquer um dos shows da turnês mundial "Dois Amigos, um século de Música" percebe a versatilidade e enorme abrangência do repertório da dupla, e como eles influenciaram cada um dos artistas que surgiram nas últimas décadas. Não que isso seja uma novidade.

O show do último domingo, 18 de outubro, no saudoso Metropolitan (agora Citybank Hall), foi uma pequena mostra do poder e talento dos dois. O próprio show no domingo foi incluído na turnê carioca após o alto volume de procura pros dois outros shows, na sexta e no sábado, que a princípio eram os únicos previstos.

Cheguei no show um pouco atrasado porque achei que o horário era 20h30, mas na verdade o início estava marcado para as 20h. Beleza, perdi cerca de quatro músicas somente, e consegui ver quase tudo das duas horas quase que ininterruptas de voz e violão da melhor qualidade possível de se encontrar nesse país, quiçá no mundo.

Confesso também que já sabia boa parte do script do show, pois já tinha visto no Multishow a exibição de São Paulo, que foi mantida à risca, desde a ordem das músicas (com algumas trocas) até os momentos em que cada um levanta e dança no palco, e as saída ensaiadas antes dos dois Bises. Aliás a sambadinha do Caetano Veloso, com todo o respeito, é meio constrangedora. Nessa idade e com a carreira dele, contudo, acho que vergonha não é mais uma questão para ele

O show é montado na tentativa de equilibrar o repertório ora de um, ora de outro, ora dos dois juntos. Nos momentos dos duetos, a voz de Gil, mais grave, quase sempre ofusca a de Caetano. Mas isso não parece incomodar ninguém. Gil também parece precisar de menos esforço para animar o público e estimular coros uníssonos em seus hits. Aliás, hits não faltam no show, como você pode ver na lista de músicas tocadas no final do post.

Os dois pouco interagem com o público. Talvez porque as letras de suas músicas falem por si. O show tem alguns pontos altos: Super Homem, Esotérico, Não tenho medo da morte, onde Gil só canta e batuca no violão com uma voz rouca, Toda menina baiana, Expresso 2222 e as seis últimas músicas, que fizeram muitas pessoas levantarem de suas mesas e se aglomerar na frente do palco e nas laterais. Pena que a maioria fez isso para filmar ou fotografar melhor com o celular.

As adaptações no repertório foram muito felizes: Fechar com Aquele abraço, As camélias do quilombo do Leblon, anunciada por Caetano como a mais recente composição da dupla


Caetano e Gil cantando "Nossa Gente"

Cada letra e cada melodia remetem a uma época/momento diferente da vida dos dois artistas, e de todos os seus fãs. Desde os festivais de música, aos momentos de exílio na ditadura, ou as exaltações do povo e das riquezas do Brasil, Caetano e Gil não contam nesse show apenas suas histórias musicais, mas também uma parte muito importante da história do Brasil nos últimos 50 anos. E esse mosaico riquíssimo e difícil de ser montado diante de tamanho repertório, dá uma dimensão enorme a esse show, que pode ser o último dos dois em dupla. Sorte de quem viu.
  1. Back in Bahia
  2. Coração vagabundo
  3. Tropicália
  4. Marginália II
  5. É luxo só (João Gilberto cover)
  6. É de manha
  7. As camélias do quilombo do Leblon
  8. Sampa
  9. Terra
  10. Nine Out of Ten
  11. Odeio Você
  12. Tonada de Luna Llena
  13. (Simón Díaz cover)
  14. Eu vim da Bahia
  15. Super Homem (A Canção)
  16. Come prima (Tony Dallara cover)
  17. Esotérico
  18. Tres Palavras
  19. Drão
  20. Não Tenho Medo da Morte
  21. Expresso 2222
  22. Toda menina baiana
  23. São João xangô menino
  24. Nossa gente
  25. Andar com fé
  26. Filhos de Gandhi
  27. Desde que o samba é samba
  28. Domingo no parque
  29. A luz de tieta
  30. Leãozinho
  31. Aquele abraço

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Tá bom, tá uma festa

Criolo à vontade no Circo Voador  Foto: Vinicius Pereira, Jornal do Brasil

Poucos são os artistas hoje no mundo que conseguem, depois de um álbum de grande sucesso, se manter no topo com a mesma qualidade musical, e mostrar evolução. Um deles com certeza é o Criolo, que lançou no final do ano passado o "Convoque seu Buda", álbum seguinte ao aclamado
"Nó na Orelha", que parecia difícil de igualar em relação à qualidade das letras, batidas e musicalidade. Mas Criolo e seu time fizeram a tarefa parecer natural, e até fácil em alguns momentos.

O show do dia 16 de maio no Circo Voador durou as já tradicionais 1h30 dos shows do Criolo (pelo menos todos que fui duraram isso). Talvez uma estratégia para não se esgotar e deixar o público com um gostinho de quero mais. Porque repertório para pelo menos mais meia hora havia, de sobra. Em contrapartida, o rapper intensifica sua emoção em cada estrofe de cada música, para, como dizem os argentinos no futebol, "dejar todo en la cancha".

O evento em si tinha ares de protesto contra a redução da maioridade penal, debate do momento. Apesar do engajamento e de seus posicionamentos claros nas letras, Criolo não fez nenhum discurso no show a respeito do tema, ou sobre qualquer outro assunto que não fosse agradecer o público (Acho que o Criolo é o artista mais humilde que eu conheço). Os momentos de conversa mais divertidos e o único posicionamento aberto ficaram a cargo, como de costume, do DJ Dan Dan.

Criolo, Ganjaman, Dan Dan e banda tiveram a manha de mesclar o repertório do CD novo com as músicas mais estouradas do Nó na Orelha, o que contribuiu para manter a energia do show elevada o tempo todo. Até porque o público já está bastante familiarizado, sabe boa parte das letras e já tem suas músicas preferidas, com destaque para a música que dá título ao CD, Esquiva da Esgrima (as duas que abriram o show, Duas de Cinco, e Cartão de Visita.

Essa última faixa merece atenção especial porque ela mostrou a exata grandeza, perspicácia e senso de oportunidade do Criolo, ao usar uma brincadeira na qual muito malandrão da internet zoou ele a seu favor no final da letra: "A alma flutua leite a criança quer beber /  Lázaro alguém nos ajude a entender". Essa virada de jogo já torna essa música um clássico do rap, pelo menos pra mim. Além das já citadas, o CD traz melodias muito bem trabalhadas por Ganjaman, letras sutis e muita sagacidade nas rimas e temáticas. Abaixo, a abertura empolgante do show.



No show, os refrões das novas funcionam e podem fazer desse um álbum ainda melhor que o "Nó", cujas versões apresentadas foram bem mais próximas das gravações originais, sem as intervenções das versões ao vivo, que em alguns casos, como em Sucrilhos, já estão decoradas de cor pelos fãs que acompanham. Em Grajauex, Lionman, Subirusdoistiozin, as versões também ficaram mais parecidas com as originais do CD, e essa estratégia ajudou a destacar as músicas do álbum novo. Meta alcançada.




quinta-feira, 14 de maio de 2015

Os Blues que esquecemos de apreciar


Foto do show, tirada do Facebook oficial da banda


No dia 25 de abril, um sábado, fui ao show da banda Soulshine Jam Band, no teatro do Cinearte Uff, que promoveu um interessante festival de blues, o Tudo Blues, que deu uma boa oportunidade para várias bandas do gênero da região apresentarem seus trabalhos. O título desse post é mais uma mea culpa deste que vos fala, por ser um completo ignorante no que diz respeito às referências, aos grandes nomes e às ótimas canções apresentadas naquela noite. 

Meu desconhecimento técnico e histórico do gênero me permite avaliar apenas a performance dos músicos da banda individualmente. E confesso que, de início, achei que fosse uma banda gringa, pela ótima pronúncia dos dois vocalistas da banda, Ricardo e Greg Wilson. Ricardo por vezes leva a musicalidade da banda mais para o lado da surf music, com seu visual despojado e a voz rasgada, que lembra o de alguns artistas do estilo, como Donavon Frankenheiter, Ben Harper e Eagle Eye Cherry. Por outro lado, Greg puxa para a música country norte-americana com grande talento, na voz e nos solos de guitarra. O estilo mais low profile de Greg acaba combinando perfeitamente para os dois formarem uma ótima dupla de frente da banda.  

Essa mistura de estilos é um trunfo importante pra banda não deixar a energia cair durante o show, que teve mais ou menos uma hora e meia. Outros talentos individuais também apareceram, como o tecladista, com vários solos, e o baterista, que, na maior vibe Whiplash, chegou até a derrubar um dos microfones que estavam perto, tamanha era a energia e entrega com que batia nos pratos. Um show à parte. 

Ricardo é definitivamente o protagonista da banda. Toca vários isntrumentos e tem uma presença forte de palco, mesmo que tenha ficado apenas sentado. Tocou gaita, trocou várias vezes de violão e abusou do talento vocal. O outro violão e a percussão também são competentes para assinalar a personalidade e estilo da Soulshine. Pelo que vi rapidamente na página deles no Facebook, eles tocam bastante pela região oceânica de Niterói, caso queira prestigiar o som dos caras. Pelo que vi, tá mais do que recomendado, especialmente se for num fim de tarde, depois de curtir uma praia. 


segunda-feira, 20 de abril de 2015

Sente a vibe



O palco foi todo decorado com plantas e artifícios pra criar um clima lounge, bem relax, característico dos CDs e de todo o trabalho da Céu. Quem foi ao Circo Voador neste último sábado, 18 de abril, definitivamente sabia que não veria um show agitado. Mas mesmo sem criar essa expectativa, o show perde por ter poucos momentos de catarse entre cantora e público, apesar de ser bom de ver e escutar.

Céu e seu traje espacial
Ignorem a falta de foco do meu celular, estava prestando atenção no show
Apesar do grande talento vocal e de produção musical em seus CDs, que transbrodam combinações de ritmos inovadoras, Céu tem pouca presença de palco. O vestido prateado, talvez uma menção ao traje espacial de "Falta de Ar", a música que abriu o show, até atraiu a atenção nos primeiros minutos do show, mas a canção, que parecia ter a intenção de esquentar ou fazer a galera tirar o pé do chão, não teve uma recepção tão calorosa.

Talvez o momento de maior interação tenha sido quando Céu mencionou que tinha feito aniversário no dia anterior e recebeu um croro de parabéns pra você do público. As músicas mais conhecidas "Cangote", "Malemolência", "Bubuia", "Chegar em Mim", e o cover "Mil e uma noites de amor", do Pepeu Gomes, não têm força suficiente para sustentar a expectativa de um show inteiro de uma hora e meia. Uma parte da galera talvez tenha ido ao Circo mais por conta da sabida habilidade dela no reggae, exibida em "Concrete Jungle". Céu também cantou em italiano, em um resquício de sua bem sucedida carreira internacional, mas que no Brasil, ainda precisa de mais fôlego caso queira sair da limitação ao público alternativo e chegar de vez ao mainstream.

fato é que o show não chegou a empolgar muito. Não sei se por culpa da geração smart phones que guarda lugar colado no palco para filmar ou fotografar melhor em vez de curtir e interagir com o artista ou se por falta ainda de um grande hit ou de mais músicas famosas da cantora.

Trecho de Chegar em mim no show de sábado

Toda essa minha análise pode estar diretamente influenciada pela minha clara preferência por show mais potentes, mais animados e com mais interatividade. Céu fez isso pouco, mais em um estilo que funcionaria melhor, a meu ver, no estilo barzinho/violão.



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Um show pra manual

copyright ®Marcos Hermes / Agência Lens
Quem viu o show do Foo Fighters ontem, dia 25 de janeiro de 2015, no Maracanã, teve uma certeza acima de todas. Dave Grohl conseguiu moldar a si próprio e a banda para ficarem perfeitamente à vontade na frente de grandes públicos, como se estivessem tocando em um barzinho pequeno ou nos fundos de uma casa, dentro de uma garagem. Dave sempre interage muito bem com o público e faz com que as duas horas e meia de show passassem voando.

Sou suspeito para falar que o show foi muito bom, porque sou muito fã da banda, mais especificamente desde 2003, quando vi o clipe de Times Like These pela primeira vez. Em 2004 já fazia parte da comunidade do Foo Fighters Brasil no Orkut e acompanhei todas as especulações de vinda deles desde 2005, arrependido por não conhecê-los ainda em 2001 quando eles vieram no Rock In Rio. 

Então é com essa base argumentativa que esse post será usado para expor o lado crítico do show, já que as coisas boas vocês já devem ter lido a maioria das coisas boas em outros sites. De início já adianto logo que não curti ainda esse cd novo. Acho muito maneira a ideia da viagem por várias cidades, descobrir as diferentes histórias, entrevistar as personalidades locais, mas musicalmente achei o resultado frustrante, e isso ficou claro na reação do público ao vivo quando Dave cantou as músicas novas. Não pegaram e, pelo que li, foi igual em São Paulo e em Porto Alegre. 

Para garantir os três pontos, Dave enfileirou logo depois de Something From Nothing (que a galera só sabe cantar porque toca toda hora no rádio) uma trinca de hits poderosos: The Pretender, Learn To Fly e Breakout. Todas cantadas em coros emocionantes. O show seguiu bem com Arlandria, My Hero e Big Me, mas a energia caiu em seguida, especialmente na sequência em que Taylor cantou Cold Day In The Sun. Nas turnês anteriores, Dave e Taylor trocavam de lugar, o que sempre é uma atração à parte, e de quebra dá mais fôlego pro baterista cantar tranquilo, com mais fôlego. Dessa vez, ambos permaneceram em seus lugares e a voz de Taylor sumia em vários momentos, em meio à barulheira muitas vezes desnecessária das três guitarras (foi mal, Pat Smear).

Os covers foram uma boa sacada e ficaram legais, mas poderiam ser menos. Acredito que muita gente preferia mais músicas dos próprios Foo Fighters do que ouvir Rush ou Queen, mas valeu o inusitado, e também tem a ver com a vibe atual do Dave, de recuperar influências. O tecladista , sexy sem ser vulgar, foi bem e trouxe uma aura diferente às músicas. O palco menor no meio do corredor é uma ótima sacada, aproxima a galera e dá outro clima pro show. Já tinha visto coisa semelhante num show do Rappa na Marina da Glória em 2011, o que não tira o mérito dos norte-americanos. E também não sei quem exatamente começou com essa moda. 


Dave também exagerou nas loongas pausas antes das partes finais das músicas mais famosas. Ele costuma fazer isso sempre, eu sei, mas dessa vez ele caprichou. Fez isso em Monkey Wrench, All My Life, Breakout, My Hero, e talvez em outras que não me lembro agora. Outro ponto negativo do show, pelo menos pra mim, é Skin and Bones, a música que eu acho mais chata deles e sempre está nos set lists. 

Ainda assim, a turnê tem saldo positivo. Com algumas diferenças no setlists, a banda é consistente em shows grandes e confirma mais uma vez seu nome entre os gigantes do rock atual. O fim do show foi com a sempre ótima e necessária Everlong. Quando começam os primeiros acordes todo mundo sabe que é a última música. Dave já deveria ter pensado em outro encerramento diferente pra acabar com essa previsibilidade. O que não significa que essa previsibilidade seja ruim. E que voltem logo. 

Setlist

1 – Something From Nothing
2 – The Pretender
3 – Learn to Fly
4 – Breakout
5 – Arlandria
6 – My Hero
7 – Big Me
8 – Congregation
9 – Walk
10 – Cold Day in the Sun (Including parts from “Mountain Song”, Jane’s Addiction, “Smoke on Water”, Deep Purple, and Blackbird, The Beatles)
11 – In the Clear
12 – This Is a Call
13 – Monkey Wrench
14 – Skin and Bones (Dave alone on acoustic guitar with Rami Jaffee on accordion on second half)
15 – Wheels (Dave alone on acoustic guitar)
16 – Times Like These (First half slow version only with Dave, second half normal version with full band)
17 – Detroit Rock City (Kiss cover)
18 – Tom Sawyer (Rush cover)
19 – Stay With Me (The Faces cover, Taylor on vocals. With solos from each member)
20 – Under Pressure (Queen & David Bowie cover, Taylor And Dave on vocals)
21 – All My Life
22 – Best of You
23 – Everlong