quinta-feira, 3 de maio de 2012

Entrevista com Gog, o Poeta

Vou aproveitar este espaço para publicar uma entrevista que fiz em maio de 2010 (pra uma revista online que acabou não sendo publicada) com o Genival Oliveira Gonçalves, o GOG. Ele é um dos mais criativos e inteligentes artistas do rap nacional,e tem uma boa quantidade de letras muito inteligentes, cheias de críticas sociais e protesto. Pra quem não conhece o trabalho dele, vejam um exemplo abaixo, da música mais famosa dele, com participação da Maria Rita:

Considerem que eu ainda era um aspirante a jornalista (hoje estou formado), em uma das primeiras entrevistas da carreira, e em uma entrevista por e-mail. Isso justifica (um pouco) umas perguntas grandes demais, e outras meio clichês. Considerem também que desde a época dessas perguntas, muita coisa mudou, inclusive o contexto em que o Rap nacional hoje está inserido, mas mesmo assim os temas  permanecem atuais.

Fora tudo isso, também vale pelas ótimas respostas do GOG, que demonstrou uma posição firme em relação à grande mídia, mas otimista em relação à Internet. Também há boas declarações e análises sobre música, influências, tendências, estereótipos, exposição na mídia, entre outros. Vejam abaixo como ficou:


Qual sua maior fonte de inspiração para escrever as letras?

A vontade de transformar a realidade atual, que a principio parece imposta, mas que depende do nosso protagonismo para ser transformada.

Quem é seu maior ídolo no rap? 
O Racionais em Holocausto Urbano foi uma grande inspiração.

Rappers como você, MV Bill, entre outros, fazem show com banda, e incluem elementos de outros estilos musicais em suas músicas (samba, mpb, rock, etc.). Você vê essa tendência á mistura como um caminho que seria inevitável ao rap nacional, ou é mérito exclusivo e inovação dos rappers de hoje?
A grande revolução musical que o hip hop proporcionou teve o toca discos como instrumento vital.  Foi ele que deu popularidade, possibilidade de expressão e comunicação através da música. Eu não cantaria se não fosse essa fator. Não considero a banda uma evolução, mas uma opção, uma roupagem. Meu porto seguro é o DJ. No que diz respeito à produção musical, são as experiências que levam a novos sons, formatos, agregando idéias, estilos, ritmos, etc.

Você ainda percebe um preconceito do grande público em relação ao rap nacional?
Sim. Mas é um preconceito pelo qual todos os estilos musicais nascidos na simplicidade enfrentaram. Temos que reagir com sabedoria, criatividade e postura.

Acha que melhorou, ou piorou (desde a década de 90 mais ou menos)?
Tudo tem evoluído no período. O hip hop ocupa a cada dia um espaço de veiculação, divulgação bem mais elástico, e as pessoas passaram a entendê-lo mais.

Dois caminhos diferentes já se mostraram bem sucedidos no rap nacional:  O Racionais, que mesmo que aparecem muito pouco na mídia, e mantêm o sucesso e um público fiel até hoje, e alguns da nova geração que aparecem mais e têm conquistado um espaço cada vez maior na grande mídia, além de atingir novos públicos. Para você, qual a maneira mais inteligente de conciliar o discurso de protesto do rap dentro dos grandes meios de comunicação,  que muitas vezes representam interesses econômicos opostos ao discurso do rap? E como atingir a grande massa de pessoas que só tem acesso à informação por esses meios?

Tudo é questão de estratégia. E toda estratégia tem continuação diante dos resultados obtidos. A minha, é manter-me o mais próximo possível das minhas bases, pesquisar bastante, aprender fazendo e apresentar propostas, inovações ao cenário. Sinceramente, creio que o meu trabalho, e forma de expressar vão de encontro, ou seja, são contrários ao que o sistema quer e precisa como modelo. Toda vez que me convidam para aparições em meios de comunicação de grande audiência, percebo uma tentativa de desqualificação ou de moldagem. Estão perdendo tempo, pois não caio nessa armadilha e não tenho nenhum interesse de frequentar esses meios. penso que os primeiros locais a serem ocupados são os nossos, pois espaços não ocupados serão ocupados por ideologias dominantes. Foi isso que aconteceu no passado com os meios de comunicação, e que está exposto pra todo mundo ver hoje. No entanto, não acredito que o nosso povo só tenha acesso a esse tipo de informação ou meio de comunicação. Além de outras vias já existentes, estão surgindo novas. 

Pra você, existe um modelo ideal de enfrentar a grande mídia?
Para grande mídia a fórmula sempre será: fazer o que eles querem, ou seja, ser, ou parecer, estar bem próximo, do modelo deles. Ele vão até fazer de conta que te entendem, mas vai prevalecer o que eles querem.

Qual você acha que é o caminho que o rap deve seguir no futuro?
São várias vias, eixos a serem seguidos, mas é preciso o debate a informação e o conhecimento, para não entrar em caminhos sem volta. Infelizmente, a maioria não tem esse preparo, nem a preocupação. 

Como você encara a relação entre a internet e o Hip-hop, hoje no Brasil?
Muito interessante e em franca evolução. Vejo vários amigos e amigas do movimento, que antes eram contrários, ou não entendiam a inclusão digital e que hoje têm sites, blogs, mypace e twitter. Isso é maravilhoso.

O que você pensa sobre a diferença entre o espaço do hip hop na mídia dos Estados Unidos e no Brasil, ainda é um problema? Você vê algum progresso nesse sentido?

O Americano, historicamente, trabalha muito bem com a mídia, com o digital, não poderia ser diferente. Temos muito a aprender, mas não podemos cair no erro de pensar que tudo que é bom pra eles é pra nós e nem que o digital é salvação da lavoura, trata-se de uma opção.
Temos que saber que existem particularidades, e respeitá-las.

Para você, o estereótipo dos rappers americanos (fora algumas exceções) afeta de forma negativa ou positiva os jovens no Brasil?
Depende da leitura que se faz. Tem gente que é influenciado pelo estilo, outro pela letra, tem gente que tira uma lição positiva, já outros se deixam influenciar pela negatividade, e por aí vaí. O que é certo é que temos que nos espelhar é em nós mesmos e na nossa realidade. O hip hop brasileiro já tem tempo e amadurecimento bastante para andar com as próprias pernas.

Pra você, qual a função principal, e a importância do rap para a sociedade brasileira?

Trabalhar na transformação sociocultural do seu público alvo, as periferias

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