quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A Madrinha do Samba mostra que ainda é preciso ouvi-la

Foto de qualidade ruim porque foi tirada do meu celular. Mas dá pra ver o palco verde e rosa


Chora, não vou ligar. Esse trecho, que virou hit oficial das torcidas dos clubes do Rio de Janeiro e também dos blocos de carnaval pode resumir o alcance e a empatia de Beth Carvalho com o povo, colocada à prova no último dia 30 de janeiro, no palco Vivo Rio. Até mesmo a vendedora de chicletes, amendoins balinhas e doces esqueceu seu objetivo principal ali e se entregou à catarse coletiva causada pelo refrão "Você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão" e pulou como se não houvesse amanhã. Tenho minhas dúvidas se ela atenderia algum cliente que a abordasse naquele momento tão feliz em que ela, assim como as pessoas que pagaram bem caro para assistir a madrinha do samba, simplesmente curtia e cantava sem medo de ser feliz. Isso é Beth Carvalho.

Agora, sobre o show:

Houve um misto de frustração e apreensão no momento em que Beth Carvalho levou o microfone à boca para começar a cantar "O show tem que continuar", clássico do Fundo de Quintal. A voz dela picotava, as backing vocals e o público ajudava a cantar, enquanto a equipe dos bastidores corria para substituir o maldito microfone. E isso tudo depois de uma série de mensagens mostradas no telão do Vivo Rio, de grandes bambas e artistas para a Madrinha do Samba. A última, de Zeca Pagodinho, dizia: "canta pra gente, Beth!", mas quis o acaso que ela só conseguisse fazer isso de fato quase na metade da primeira música, o que motivou aplausos ainda mais empolgados diante de uma das vozes mais belas e marcantes do samba e da música brasileira.

Ao longo do show, Beth deu alguns recados: Um, genérico, e a meu ver, um pouco conservador demais, quando disse que "Isso é samba, não isso que cantam hoje por aí". Me pareceu uma indireta à nova geração representada principalmente pelo Thiaguinho, que imprimiu um estilo próprio de cantar e é muito copiado por outros vocalistas mais novos. Acho que alimentar essa divisão  um suposto combate entre nova e velha geração (que tem paralelo também em outros estilos musicais), só enfraquece o samba como movimento cultural e popular. Independente do estilo de cantar, ao qual também tenho minhas críticas, samba é samba e todos devem ter seu espaço e seu público Isso não faz mal a ninguém.

O outro recado, este muito bem dado, foi a inclusão de estranhou o quê?, de Moacyr Luz, no reperetório. Antes de cantar, Beth anunciou que a música falava sobre racismo, no que foi devidamente aplaudida. Ao final da música ainda repetiu o refrão à capela junto com a galera. Recado dado. Ao longo do show, a madrinha do samba, chamada assim por ter sido a responsável por popularizar em sua voz vários ícones do samba até então anônimos, enfileirou sucessos de todas as épocas de sua carreira, e em nenhum momento foi abandonada pelo coro uníssono da plateia. Camarão que dorme a onda leva, Folhas Secas, O Mundo é um Moinho, Água de Chuva no Mar, Andanças e outros.



Ainda deu tempo para um empurrãozinho em sua sobrinha Luciana Carvalho, que cantou junto com Beth uma música de Dona Ivone Lara, Tendência, como você pode ver abaixo:


Beth cantou duas músicas de seu cd novo. Ambas com bom potencial para virar sucesso, boas letras e boa pegada. Beth também fez dueto com Álvaro Santos, músico de sua banda em Ainda é tempo pra ser feliz, de Arlindo Cruz e Sombrinha, também muito bem executada. Teve também o bonito momento de homenagem de Beth ao presidente de honra da Mangueira, Nelson Sargento, que estava presente no show e foi aplaudido de pé.

No final, Beth emendou um pout-pourri de sambas e marchinhas, incluindo as consagradas do Cacique de Ramos e Bola Preta. Neste momento, nem os mais idosos presentes no auditório do Vivo Rio se aguentaram sentados e levantaram para pular uma prévia do carnaval, o que rendeu a maravilhosa cena que descrevi no primeiro parágrafo deste texto. Por essas e outras, Beth tem méritos por conseguir sintetizar, desde o início de sua carreira o samba, o gosto popular e a cultura brasileira, sem deixar a humildade, o talento e o bom gosto de lado. Não é qualquer um que é cantado pela Beth, pode acreditar.

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